Os passos curtos estreitavam Sophia e o deserto, o cansaço consumia a jovem que há três dias fugiu da sua vida de realeza. Nesta fuga lembrava que o deserto na infância tinha um fim, bastava olhar para o horizonte e nele avistava um campo que mesmo longínquo podia-se calcular o tempo de distância para alcançá-lo e, desse modo, não seria tragado pelo infinito deserto. Porém agora, a jovem Sophia constatava que o deserto havia crescido, fitava o horizonte e apenas areia vinha à visão. “Ai, daqueles que ocultam desertos!”. Exclamou e continuou caminho.
Um pouco a frente foi reconhecida por um velho pigmeu que estranhou a presença de Sophia e perguntou: O que a princesa está fazendo por aqui? Sophia não falou uma palavra, apenas sorriu e continuou a andar. As brincadeiras no palácio já não tinham mais a alegria de quando era criança, as fadas que pareciam tão bondosas lhe aparentavam perversas, com seus sorrisos, escondia um desejo de fazer sofrer incalculável, o feiticeiro que realiza magias para encantar o palácio com o passar do tempo distanciou de todos ficando somente no seu canto, lendo e realizando magias para deleite próprio. Com a morte do Rei o clima se tornou ainda mais impossível, uma disputa de poder invadiu todos os setores, a Rainha deprimida não percebia o que estava ocorrendo, o príncipe que seria o sucessor, ainda tinha 10 anos, teria de esperar ainda quatro. Quanto à princesa Sophia não poderia galgar o poder, pois aqui mulheres não comandam. Diante desses fatos não havia motivo para lá continuar, assim duas semanas após completar 17 anos decidiu partir, deixou um bilhete para mãe, beijou o irmão e se foi... Nesta fuga tinha em mente poder alcançar o horizonte, visto que nos campos podia ser outra pessoa e fazer uma nova vida. Contudo, os campos não podem mais ser vistos, restava apenas caminhar para um dia encontrar algo semelhante. Porém até o momento encontrou nada...
A pele pálida ficou rosa, a garganta cada vez mais secava, sorte que trouxe muita água, nas suas costas a grande mochila pesava, resolveu descansar. Armou a barraca, dentro a sombra acalmou a jovem, nesta terra de três sóis a noite era algo momentâneo, por isso quando ela chegava todos celebravam com bebida, comida ou qualquer coisa que lhes propusessem prazer. A claridade era insuportável para aqueles que viviam no deserto, agora Sophia, a nova residente, já sabia disso. Pensou no palácio, o que estariam fazendo agora, pelo que parece ninguém se importou da saída dela, pois para eles, ela logo retornaria, não agüentaria a vida no deserto, porém o deserto para Sophia não se faz apenas de areia, às vezes de ostentações de falsos títulos e sentimento é quando o homem se encontra no maior dos desertos. Com isso, apesar de ver a esperança ir embora frente aos campos, ela se sentia leve, porque entre as areias não havia diferença apenas o mesmo partia de um lado ao outro. “Estou na eternidade” disse. Abriu a mochila, pegou um pão e comeu. Resolveu descansar, deitou e os olhos foram se fechando aos poucos, adormecendo.
Cansada, Sophia dormiu por horas, três dias se passaram desde a última vez que caiu no sono, acordou pelos barulhos que próxima da sua barraca ressoava, viu que a noite havia chegado, algum grupo de pessoas festejava, correu em direção, porém a noite estava no fim do mesmo modo que a alegria, assim tudo retornou ao silêncio e ela se viu novamente consigo. Recolheu a barraca, colocou nas costas e caminhou, o sol que ainda iniciava a aparecer lhe dava ânimo para continuar. Sophia peregrinou até o topo de uma duna, pois as nuvens repousavam nela, ela ergueu as mãos e se banhou com as águas que caíam das nuvens, encheu o seu recipiente de água e voltou a sua busca. Neste retorno ela avistou um senhor de barba, que usava um manto e se sustentava em um cedro de madeira, do alto acompanhava-o uma águia e no seu pescoço enroscava uma serpente, Sophia lembrou-se de histórias sobre aquele senhor, contudo imaginava ser um personagem mítico, tentava lembrar o nome dele, porém havia esquecido, o senhor aos poucos se distanciava e sumiu da visão da jovem, com isso ela voltou a andar. A visão daquela pessoa trouxe a Sophia boa perspectivas sobre o resto do dia, então resolveu não carregar mais aquela pesada mochila que trazia nas costas, largou no deserto, os antigos pertences escorreram pela areia, ela olhando-os sendo sugado pelo deserto sentiu mais alegre. Olhou para o horizonte sabia que ia encontrar os campos, pois era sua vontade, talvez no deserto não tivesse de esperar que lhe concedam, mas tem que combater para obter o que deseja. Ela começou a correr...
A corrida não era extenuante, mas extasiante, os passos eram mais largos cada vez que percorria o deserto, as areias entravam entre os dedos do pé promovendo uma amplidão da vontade. Sophia queria possuir muitas coisas no momento só que não tinha mais um alvo definido, pois tudo se movia, nada era fixo, a velocidade dos passos marcavam o poder da vontade. O efêmero, o fugaz, o verdadeiro, se tornou aquilo perscrutado por Sophia, já que por toda a vida carregou consigo os interesses e quereres alheios, agora combatia de frente o seu próprio deserto, desse modo poderia encontrar um oásis que pudesse repousar e mastigar os detalhes da vida que lhe passaram de maneira uniforme. No entanto, na exacerbação do si mesmo proveio o embate com algo maior pelo qual o horror e admiração se juntavam, visto que, uma forte ventania cobriu o deserto, o céu tornou-se negro, as areias se juntavam uma acima da outra, se formava uma tempestade de areia. Por instantes, Sophia pensou aonde iria se esconder, no deserto não havia local. Foi então que decidiu continuar correndo, entretanto, o vento, a areia, a impediam, Sophia não conseguia enxergar. No meio da tempestade ressoava um som bem grave lhe parecia com um dragão, ela estava chegando ao limite, aquele fenômeno parecia dizer à jovem que ela devia retornar, ela devia parar, ela devia desistir, que Sophia devia morrer. Mas ela recolheu forças e gritou para todo aquele dever: eu quero...
A partir dali, ela queria correr mais, mesmo sem ver o que lhe acontecia a míseros metros a sua frente, os campos já não importava mais alcançar, apenas diante do deserto não queria mais resignar, apenas caso houvesse de perder as forças seria através do próprio querer e não por causa de um dever que lhe adveio do exterior. Correndo, Sophia não percebeu que estava indo em direção a um ciclone que havia se formado, ele a tragou e ergueu a jovem princesa aos céus, aí restou a Sophia imaginar que o fim estaria próximo, numa visão conseguiu avistar uma estrela cintilante que aos poucos se apagava. Esta visão a fez ainda resistir, deixou o ciclone vir para senti-lo em cada milímetro e na queda fatal, jogou os braços para trás e asas surgiam das suas costas, agora não mais caminhava ou corria, mas sim voava. Com isso, conseguiu escapar da tempestade e adveio a bonança, só que agora Sophia via o deserto do alto, todas as hordas que moravam naquele local se tornaram minúscula, viu os povos, já não conseguia entender o que lhe diziam, já que estava tão acima que estava apta a criar sua própria linguagem, sua própria gramática, seu próprio deus.
Tentou avistar o palácio, não era mais possível, os campos não enxergava, apenas deserto, aí notou que os campos nunca existiram, apenas faziam parte do imaginário da sua fase infante. O riso a dominou, agora ele era a maior regra, já que para com o horizonte apenas o deserto era possível, então não representava um além, ali mesmo iria criar o campo para transformar-se naquilo que ela já é, um verdadeiro enigma para todos e um arquétipo para ninguém. Decidiu tocar no deserto, agora o sentimento era diferente, pois ela se tornou ingênua, não emitia juízos, não havia mais o bem ou mal, ou qualquer dicotomia metafísica. Assim, Sophia não mais simplesmente caminhava, o seu andar se traduzia numa dança que envolvia todo o seu corpo e não mais falava, mas cantava. Entretanto, as pessoas não compreendiam a sua cantiga, pois Sophia tornou-se o próprio além.
Agradeço a meu amigo filósofo Aracajuano, Thiago Dantas, escritor deste conto.
;)
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