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terça-feira, dezembro 08, 2009

A morta - Guy de Maupassant

Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende ininterruptamente, que sobe das profundezas da alma como a água de uma fonte, que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.

Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.

E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.

Voltou toda molhada, nutria noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.

O que aconteceu? Não sei mais.

Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!"

Não soube de mais nada. Nada. vi um padre que falou assim: "Sua amante." Tive a impressão de que a insultava. Já que estava morta, ninguém mais tinha o direito de saber que fora minha amante. Expulsei-o. Veio outro que foi muito bondoso, muito terno. Chorei quando me falou dela.

Consultaram-me sobre mil coisas relacionadas com o enterro. Não sei mais. Contudo, lembro-me muito bem do caixão, do ruído das marteladas quando a enterraram lá dentro. Ah! meu Deus!

Ela foi enterrada! Enterrada! Ela! Naquele buraco! Algumas pessoas tinham vindo, amigas. Caminhei durante muito tempo pelas ruas. Depois voltei para a casa. No dia seguinte, parti para uma viagem.

Ontem, regressei a Paris.

Quando revi o meu quarto, o nosso quarto, a nossa cama, os nossos móveis, toda essa casa onde ficara tudo o que resta da vida de um ser depois da sua morte, o desgosto apoderou-se de mim novamente, de uma forma tão violenta que quase abri a janela para atirar-me à rua. Não podendo mais permanecer no meio daqueles objetos, daquelas paredes que a tinham encerrado, abrigado, e que deviam conservar em suas fendas imperceptíveis milhares de átomos seus, da sua carne e da sua respiração, peguei meu chapéu para sair. De súbito, ao atingir a porta, passei diante do grande espelho que ela mandara colocar no vestíbulo para mirar-se, dos pés à cabeça, todos os dias antes de sair, para ver se toda a sua toalete lhe ia bem, se estava correta e elegante, das botinas ao chapéu.

E parei, de chofre, diante desse espelho que tantas vezes a refletira. Tantas, tantas vezes, que também deveria ter guardado a sua imagem.

Fiquei lá, de pé, trêmulo, os olhos fixos no vidro liso, profundo, vazio, mas que a contivera toda, que a possuíra tanto quanto eu, tanto quanto o meu olhar apaixonado. Tive a impressão de que amava aquele espelho - toquei-o - estava frio! Ah! recordação! recordação! Espelho doloroso, espelho ardente, espelho vivo, espelho horrível, que inflige todas as torturas! Felizes os homens cujo coração, como um espelho onde os reflexos deslizam e se apagam, esquece tudo o que conteve, tudo o que passou à sua frente, tudo o que se contemplou e mirou na sua feição, no seu amor! Como sofro! Saí e, involuntariamente, sem saber, sem querer, dirigi-me ao cemitério. Encontrei seu túmulo, um túmulo singelo, uma cruz de mármore com algumas palavras: "Ela amou, foi amada, e morreu."

Lá estava ela, embaixo, apodrecendo! Que horror! Eu soluçava, a fronte no chão.

Fiquei lá por muito tempo, muito tempo. Depois, percebi que a noite se aproximava. Então, um desejo estranho, louco, um desejo de amante desesperado apoderou-se de mim. Resolvi passar a noite junto dela, a última noite, chorando no seu túmulo. Mas me veriam, me expulsariam. Que fazer? Fui esperto. Levantei-me e comecei a vagar pela cidade dos desaparecidos. Vagava, vagava. Como é pequena essa cidade ao lado da outra, daquela em que vivemos! Precisamos de casas altas, de ruas, de tanto espaço, para as quatro gerações que vêem a luz ao mesmo tempo, que bebem a água das fontes, o vinho das vinhas e comem o pão das planícies.

E para todas as gerações dos mortos, para toda a série de homens que chegaram até nós, quase nada, um terreno apenas, quase nada! A terra os toma de volta, o esquecimento os apaga. Adeus!

Na extremidade do cemitério habitado, avistei subitamente o cemitério abandonado, onde os velhos defuntos acabam de misturar-se à terra, onde as próprias cruzes apodrecem, e onde amanhã serão colocados os últimos que chegarem. Está cheio de rosas silvestres, de ciprestes negros e vigorosos, um jardim triste e soberbo alimentado com carne humana.

Estava só, completamente só. Agachei-me perto de uma árvore verde. Escondi-me completamente entre os galhos grossos e escuros.

E esperei, agarrado ao tronco como um náufrago aos destroços.

Quando a noite ficou escura, bem escura, deixei o meu abrigo e comecei a caminhar de mansinho, com passos lentos e surdos, por essa terra repleta de mortos.

Vaguei durante muito, muito tempo. Não a encontrava. Braços estendidos, olhos abertos, esbarrando nos túmulos com as mãos, com os pés, com os joelhos, com o peito, e até com a cabeça, eu vagava sem encontrá-la. Tocava, tateava como um cego que procura o caminho, apalpava pedras, cruzes, grades de ferro, coroas de vidro, coroas de flores murchas! Lia nomes com os dedos, passando-os sobre as letras. Que noite! Que noite! Não a encontrava!

Não havia lua! Que noite! Sentia medo, um medo horrível, nesses caminhos estreitos entre duas filas de túmulos! Túmulos! Túmulos! Túmulos. Sempre túmulos! À direita, à esquerda, à frente, à minha volta, por toda parte, túmulos! Sentei-me num deles, pois não podia mais caminhar, de tal forma meus joelhos se dobravam. Ouvia meu coração bater! E também ouvia outra coisa! O quê? Um rumor confuso, indefinível! Viria esse ruído do meu cérebro desvairado, da noite impenetrável, ou da terra misteriosa, da terra semeada de cadáveres humanos? Olhei à minha volta!

Quanto tempo fiquei ali? Não sei. Estava paralisado de terror, alucinado de pavor, prestes a gritar, prestes a morrer.

E, de súbito, tive a impressão de que a laje de mármore onde estava sentado se movia. Realmente, ela se movia, como se a estivessem levantando. Com um salto, precipitei-me para o túmulo vizinho e vi, sim, vi erguer-se verticalmente a laje que acabara de deixar; e o morto apareceu, um esqueleto nu que empurrava a lápide com as costas encurvadas. Eu via, via muito bem, embora a escuridão fosse profunda. Pude ler sobre a cruz:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Amava os seus, foi honesto e bom, e morreu na paz do Senhor."

O morto também lia o que estava escrito no seu túmulo. Depois, apanhou uma pedra no chão, uma pedrinha pontiaguda, e começou a raspar cuidadosamente o que lá estava. Apagou tudo, lentamente, contemplando com seus olhos vazios o lugar onde ainda há pouco existiam letras gravadas; e, com a ponta do osso que fora seu indicador, escreveu com letras luminosas, como essas linhas que traçamos com a ponta de um fósforo:

"Aqui jaz Jacques Olivant, morto aos cinqüenta e um anos de idade. Apressou com maus tratos a morte do pai de quem desejava herdar, torturou a mulher, atormentou os filhos, enganou os vizinhos, roubou sempre que pode e morreu miseravelmente."

Quando acabou de escrever, o morto contemplou sua obra, imóvel. E, voltando-me, notei que todos os túmulos estavam abertos, que todos os cadáveres os tinham abandonado, que todos tinham apagado as mentiras inscritas pelos parentes na pedra funerária, para aí restabelecerem a verdade.

E eu via que todos tinham sido carrascos dos parentes, vingativos, desonestos, hipócritas, mentirosos, pérfidos, caluniadores, invejosos, que tinham roubado, enganado, cometido todos os atos vergonhosos, abomináveis, esses bons pais, essas esposas fiéis, esses filhos devotados, essas moças castas, esses comerciantes probos, esses homens e mulheres ditos irrepreensíveis.

Escreviam todos ao mesmo tempo, no limiar da sua morada eterna, a cruel, terrível e santa verdade que todo mundo ignora ou finge ignorar nesta Terra.

Imaginei que também ela devia ter escrito a verdade no seu túmulo. E agora já sem medo, correndo por entre os caixões entreabertos, por entre os cadáveres, por entre os esqueletos, fui em sua direção, certo de que logo a encontraria.

Reconheci-a de longe, sem ver o rosto envolto no sudário.

E sobre a cruz de mármore onde há pouco lera:

"Ela amou, foi amada, e morreu", divisei:

"Tendo saído, um dia, para enganar seu amante, resfriou-se sob a chuva, e morreu”.

Parece que me encontraram inanimado, ao nascer do dia, junto a uma sepultura.

domingo, novembro 01, 2009

A liberdade e a importância de cada momento...

Cada dia eu noto com mais intensidade a importância da liberdade e da confiança, em relacionamentos que deveriam ser simples como os de uma mãe para uma filha, mas que acabam se tornando complexos justamente pela falta desses dois componentes essenciais para uma boa convivência. Hoje me vejo presa em um rede que não consigo sair e estou esperando resultados de algumas coisas que plantei, vejamos o que me espera para o futuro e mais uma vez eu vejo que qualquer decisão tomada hoje certamente acarretará varias mudanças cruciais no futuro (efeito borboleta). Mas sinceramente, acredito em algo que faça com que as coisas aconteçam corretamente. Noto que as coisas se encaixam em um grande aprendizado e com certeza isso não e a toa. Hoje, vejo pessoas que era minhas paixões no passado, se tornarem grandes pesares no presente e isto não muda o fato que tenho que continuar minha vida, mesmo com isso tudo. Acredito que não preciso ir tão longe para conseguir conviver com certas coisas, mas gostaria de ter oportunidades de crescimento.
E oq tem de mal se as coisas que gostei ontem não gosto mais hoje? Minha vida é isso, a vida de todos é isso, uma grande transformação, graças a DEUS!
Vejo a cada dia a importância dos meus amigos de verdade, que são poucos, bem poucos. E conto com imeeensa felicidade que reencontrei/encontrei uma pessoa muito especial...

"Seu sorriso é tão resplandecente
Que deixou meu coração alegre
Me de a mão pra fugir desta terrível escuridão
Desde o dia em que eu te reencontrei,me lembrei daquele lindo Lugar.
Que na minha infância era especial para mim.
Quero saber se comigo você quer vir dançar.
Se me der a mão eu te levarei por um caminho cheios de sombras eDe luz.
Você pode até não perceber, mas o meu coração se amarrou em você
E precisa de alguém pra te mostrar o amor e o mundo te dá.
Meu alegre coração palpita por um universo de esperança.
Me de a mão a magia nos espera.
Vou te amar por toda minha vida.
Vem comigo por este caminho.
Me de a mão pra fugir desta terrível escuridão."

(DragonBall - fez parte da minha vida por muito tempo)

terça-feira, setembro 08, 2009

O Deserto


Os passos curtos estreitavam Sophia e o deserto, o cansaço consumia a jovem que há três dias fugiu da sua vida de realeza. Nesta fuga lembrava que o deserto na infância tinha um fim, bastava olhar para o horizonte e nele avistava um campo que mesmo longínquo podia-se calcular o tempo de distância para alcançá-lo e, desse modo, não seria tragado pelo infinito deserto. Porém agora, a jovem Sophia constatava que o deserto havia crescido, fitava o horizonte e apenas areia vinha à visão. “Ai, daqueles que ocultam desertos!”. Exclamou e continuou caminho.

Um pouco a frente foi reconhecida por um velho pigmeu que estranhou a presença de Sophia e perguntou: O que a princesa está fazendo por aqui? Sophia não falou uma palavra, apenas sorriu e continuou a andar. As brincadeiras no palácio já não tinham mais a alegria de quando era criança, as fadas que pareciam tão bondosas lhe aparentavam perversas, com seus sorrisos, escondia um desejo de fazer sofrer incalculável, o feiticeiro que realiza magias para encantar o palácio com o passar do tempo distanciou de todos ficando somente no seu canto, lendo e realizando magias para deleite próprio. Com a morte do Rei o clima se tornou ainda mais impossível, uma disputa de poder invadiu todos os setores, a Rainha deprimida não percebia o que estava ocorrendo, o príncipe que seria o sucessor, ainda tinha 10 anos, teria de esperar ainda quatro. Quanto à princesa Sophia não poderia galgar o poder, pois aqui mulheres não comandam. Diante desses fatos não havia motivo para lá continuar, assim duas semanas após completar 17 anos decidiu partir, deixou um bilhete para mãe, beijou o irmão e se foi... Nesta fuga tinha em mente poder alcançar o horizonte, visto que nos campos podia ser outra pessoa e fazer uma nova vida. Contudo, os campos não podem mais ser vistos, restava apenas caminhar para um dia encontrar algo semelhante. Porém até o momento encontrou nada...

A pele pálida ficou rosa, a garganta cada vez mais secava, sorte que trouxe muita água, nas suas costas a grande mochila pesava, resolveu descansar. Armou a barraca, dentro a sombra acalmou a jovem, nesta terra de três sóis a noite era algo momentâneo, por isso quando ela chegava todos celebravam com bebida, comida ou qualquer coisa que lhes propusessem prazer. A claridade era insuportável para aqueles que viviam no deserto, agora Sophia, a nova residente, já sabia disso. Pensou no palácio, o que estariam fazendo agora, pelo que parece ninguém se importou da saída dela, pois para eles, ela logo retornaria, não agüentaria a vida no deserto, porém o deserto para Sophia não se faz apenas de areia, às vezes de ostentações de falsos títulos e sentimento é quando o homem se encontra no maior dos desertos. Com isso, apesar de ver a esperança ir embora frente aos campos, ela se sentia leve, porque entre as areias não havia diferença apenas o mesmo partia de um lado ao outro. “Estou na eternidade” disse. Abriu a mochila, pegou um pão e comeu. Resolveu descansar, deitou e os olhos foram se fechando aos poucos, adormecendo.

Cansada, Sophia dormiu por horas, três dias se passaram desde a última vez que caiu no sono, acordou pelos barulhos que próxima da sua barraca ressoava, viu que a noite havia chegado, algum grupo de pessoas festejava, correu em direção, porém a noite estava no fim do mesmo modo que a alegria, assim tudo retornou ao silêncio e ela se viu novamente consigo. Recolheu a barraca, colocou nas costas e caminhou, o sol que ainda iniciava a aparecer lhe dava ânimo para continuar. Sophia peregrinou até o topo de uma duna, pois as nuvens repousavam nela, ela ergueu as mãos e se banhou com as águas que caíam das nuvens, encheu o seu recipiente de água e voltou a sua busca. Neste retorno ela avistou um senhor de barba, que usava um manto e se sustentava em um cedro de madeira, do alto acompanhava-o uma águia e no seu pescoço enroscava uma serpente, Sophia lembrou-se de histórias sobre aquele senhor, contudo imaginava ser um personagem mítico, tentava lembrar o nome dele, porém havia esquecido, o senhor aos poucos se distanciava e sumiu da visão da jovem, com isso ela voltou a andar. A visão daquela pessoa trouxe a Sophia boa perspectivas sobre o resto do dia, então resolveu não carregar mais aquela pesada mochila que trazia nas costas, largou no deserto, os antigos pertences escorreram pela areia, ela olhando-os sendo sugado pelo deserto sentiu mais alegre. Olhou para o horizonte sabia que ia encontrar os campos, pois era sua vontade, talvez no deserto não tivesse de esperar que lhe concedam, mas tem que combater para obter o que deseja. Ela começou a correr...

A corrida não era extenuante, mas extasiante, os passos eram mais largos cada vez que percorria o deserto, as areias entravam entre os dedos do pé promovendo uma amplidão da vontade. Sophia queria possuir muitas coisas no momento só que não tinha mais um alvo definido, pois tudo se movia, nada era fixo, a velocidade dos passos marcavam o poder da vontade. O efêmero, o fugaz, o verdadeiro, se tornou aquilo perscrutado por Sophia, já que por toda a vida carregou consigo os interesses e quereres alheios, agora combatia de frente o seu próprio deserto, desse modo poderia encontrar um oásis que pudesse repousar e mastigar os detalhes da vida que lhe passaram de maneira uniforme. No entanto, na exacerbação do si mesmo proveio o embate com algo maior pelo qual o horror e admiração se juntavam, visto que, uma forte ventania cobriu o deserto, o céu tornou-se negro, as areias se juntavam uma acima da outra, se formava uma tempestade de areia. Por instantes, Sophia pensou aonde iria se esconder, no deserto não havia local. Foi então que decidiu continuar correndo, entretanto, o vento, a areia, a impediam, Sophia não conseguia enxergar. No meio da tempestade ressoava um som bem grave lhe parecia com um dragão, ela estava chegando ao limite, aquele fenômeno parecia dizer à jovem que ela devia retornar, ela devia parar, ela devia desistir, que Sophia devia morrer. Mas ela recolheu forças e gritou para todo aquele dever: eu quero...

A partir dali, ela queria correr mais, mesmo sem ver o que lhe acontecia a míseros metros a sua frente, os campos já não importava mais alcançar, apenas diante do deserto não queria mais resignar, apenas caso houvesse de perder as forças seria através do próprio querer e não por causa de um dever que lhe adveio do exterior. Correndo, Sophia não percebeu que estava indo em direção a um ciclone que havia se formado, ele a tragou e ergueu a jovem princesa aos céus, aí restou a Sophia imaginar que o fim estaria próximo, numa visão conseguiu avistar uma estrela cintilante que aos poucos se apagava. Esta visão a fez ainda resistir, deixou o ciclone vir para senti-lo em cada milímetro e na queda fatal, jogou os braços para trás e asas surgiam das suas costas, agora não mais caminhava ou corria, mas sim voava. Com isso, conseguiu escapar da tempestade e adveio a bonança, só que agora Sophia via o deserto do alto, todas as hordas que moravam naquele local se tornaram minúscula, viu os povos, já não conseguia entender o que lhe diziam, já que estava tão acima que estava apta a criar sua própria linguagem, sua própria gramática, seu próprio deus.

Tentou avistar o palácio, não era mais possível, os campos não enxergava, apenas deserto, aí notou que os campos nunca existiram, apenas faziam parte do imaginário da sua fase infante. O riso a dominou, agora ele era a maior regra, já que para com o horizonte apenas o deserto era possível, então não representava um além, ali mesmo iria criar o campo para transformar-se naquilo que ela já é, um verdadeiro enigma para todos e um arquétipo para ninguém. Decidiu tocar no deserto, agora o sentimento era diferente, pois ela se tornou ingênua, não emitia juízos, não havia mais o bem ou mal, ou qualquer dicotomia metafísica. Assim, Sophia não mais simplesmente caminhava, o seu andar se traduzia numa dança que envolvia todo o seu corpo e não mais falava, mas cantava. Entretanto, as pessoas não compreendiam a sua cantiga, pois Sophia tornou-se o próprio além.

Agradeço a meu amigo filósofo Aracajuano, Thiago Dantas, escritor deste conto.

;)